MINHA MENTE ME CANSA

Agora é noite de inverno em São Paulo (22 de julho de 2014) e acabei de abrir o livro “Variações do Prazer” de Rubens Alves que comprei ontem em minha andança na Avenida Paulista e antes que eu concluísse a leitura do primeiro parágrafo do prefácio, deitado sobre 3 cobertores dobrados no chão do quarto do apartamento de minha irmã Sheila, em Vila Formosa, veio em minha mente: O que é que eu quero? Ou, do que é que eu preciso? Estou feliz assim? Como deveria ser para que eu me sentisse pleno? Pleno não, ameno já me seria suficiente.

Imediatamente liguei o meu notebook para registrar esses meus questionamentos frequentes. Sempre os faço, mas, tanto os questionamentos, quanto as supostas soluções, perdem-se de mim, pois minha mente não aprendeu a registrar as coisas que penso. Ou, talvez ela esteja cansada dessa minha crise de existir que me acompanha desde muito cedo.

São Paulo é um lugar que amo, que conheço melhor que outros lugares. É uma cidade que me acolheu, me ensinou. Mas, num outro momento falarei especialmente sobre o meu amor por ela. No entanto, agora pergunto: É realente aqui o meu lugar? Deveria eu, depois de 18 anos permanecer aqui? Porque sim? Porque não? Será que o que preciso é mudar de lugar para me encontrar?

As vezes acho que devo pesar os benefícios de star aqui, contra as novas possibilidades de não estar. Será que ela, São Paulo, já não me foi suficiente? E quanto as novas possibilidades, não seriam possíveis aqui mesmo nessa cidade cheia de cidades e mundos? Tudo o que ela me ensinou já não está inserido em mim? E, todos os momentos vividos já não caminharão em mim por onde eu estiver? Portanto, porque esse medo de ficar longe daqui se aqui hoje tem me causado medo?

Medo? Do que será que estou com medo? Do trânsito? Da mecânica da vida de uma metrópole? Será que aprendi a gostar de coisas que meu dinheiro não conseguem pagar (na verdade, o meu dinheiro foi trocado por muitas dívidas, pagáveis, ainda bem!)? Ou seria o tédio de ficar horas em ônibus e metrôs cheios, em pé, sem apoio, parado num trânsito que toma boa parte da minha vida? Seria isso? Seria pelo fato de eu não estar disposto a ficar muitas horas do dia fazendo um trabalho que não gosto, que me paga pouco e que além disso eu tenha que demonstrar que sou inteiramente interessado e apaixonado por ele para garanti-lo a mim, fingindo ser proativo e todos os adjetivos que exige o mundo capitalista?

Por outro lado penso: talvez não seja que eu esteja destacando o lado ruim e sim, que, agora almejo outras coisas. Mas, o que? Ah, isso deve ser fácil de eu responder!

Sou apaixonado pelo dia, o claro, o sol. Amo praia e gosto de vida calma, silenciosa, rotineira.

E a garoa de São Paulo, naquelas noites românticas (mesmo que solitárias), de ruas molhadas e vento frio, com cheiro de pizza? Isso não me faria falta? Talvez! E se fizer, quando talvez eu estiver numa cidade quente, com praia e com uma vida mais tranquila? O que eu faria nesse momento? Pegaria um ônibus e partiria para São Paulo, viveria o momento desejado e retornaria para minha cidade litorânea?

E se eu fizesse o contrário? Talvez fosse mais interessante eu ficar em São Paulo e fazer alguns ajustes em minha vida, em diversas áreas. Ir em busca de uma nova oportunidade, um novo trabalho que eu goste, um novo espaço meu para morar (como sempre tive e não tenho mais), onde eu possa tomar os meus vinhos preferidos, ouvir minhas músicas preferidas, ler meus livros preferidos e dormir no aconchego da minha solidão e no conforto de minha cama larga, pagar minhas contas, fazer novos amigos e, quando eu sentir necessidade, desceria à Santos, botaria os meus pés na areia, os banharia com água do mar e descarregaria toda a minha tensão!

Acho tão difícil eu entender o que preciso ou o que quero, que as vezes eu sinto uma vontade de ter uma arma para atirar em meu cérebro para ver se ele para de pensar. Não se trata de morrer, pois amo viver, mas seria uma forma de castiga-lo por ter me maltratado em toda a minha vida, pois sei que, apesar de agora eu ter me acalmado, amanhã, ele me castigará novamente e por mais um dia eu serei essa pessoa complicada e estagnada.

Desanimo

Quando penso que finalmente vou fazer algo de melhor e de diferente para minha vida, chega um desanimo e tira-me toda a esperança e a vontade. E assim, diariamente, vou perdendo a oportunidade de sair desta estagnação que sou eu.

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Texto de José Régio